Jerash e outras maravilhas da Jordânia

A viagem de cinco dias à Jordânia foi em tudo extraordinária. Aconteceu porque um amigo nos lançou o desafio de irmos ter com ele à missão arqueológica francesa em Petra. O nosso lado aventureiro logo piscou o olho ao convite, comprámos bilhetes e duas semanas mais tarde estávamos a desembarcar em Amã. Corria o ano de 2011.

Amã foi o ponto de partida desta viagem que incluiu cultura, história e gastronomia, levando-nos a Jerash, a Madaba, ao Mar Morto, a Petra, aos castelos de Kerak e Shobak e ao Deserto de Wadi Rum. Começo este narrativa por Jerash e outras maravilhas da Jordânia: Madaba, o Mar Morto e o Castelo de Kerak.

Iniciámos o nosso programa por um jantar no bairro francês da capital da Jordânia, à volta de uma mesa com a missão arqueológica francesa, ouvindo falar sobre o património arqueológico do país, que vai desde o paleolítico (mais de 10 000 anos A.C) até ao período islâmico (636 D.C até à actualidade). A noite estava morna, a conversa interessante e a comida excelente. A cozinha jordana, de influência do Norte de África, do Médio Oriente, da Pérsia e do Mediterrâneo faz as delicias de quem gosta de beringela, de leguminosas – em patés e guisados – arroz, falala, borrego, pão e especiarias.

Na direcção dos ponteiros do relógio – eu, Thomas Lepaon e António Lira, ambos da missão arqueológica francesa na Jordânia

DIA 1 – JERASH E MADABA

Jerash, a fantástica cidade romana da Jordânia

Após uma noite bem dormida partimos pela manhã, rumo a Norte, para visitar a incrível cidade de Jerash (Gerasa em português) e as suas ruínas romanas. O jovem arqueólogo francês Thomas Lepaon serviu-nos de guia e falou-nos apaixonadamente da história da cidade que tem mais de 6 000 anos de existência.

Jerash, o segundo maior destino turístico da Jordânia, é um site onde se acede por colosssais portas de entrada, nos passeamos por alamedas de colunas corintías, subimos escadas que levam a templos e nos sentamos em teatros imperiais.

Na direcção dos ponteiros do relógio – Thomas Lepaon, António Nobre e António Lira

A antiga cidade de Gerasa já existia no século III A.C. Conheceu o seu apogeu sob a ocupação romana, entre 63 A.C e a segunda metade do século III D.C. Com a chegada do cristianismo, a partir do século V, a cidade de Jerash conheceu a construção de igrejas e, mais tarde, do grande complexo que regrupava uma catedral e as várias igrejas, junto ao templo de Artemis.

O seu declínio começou com as invasões persa e árabe, às quais se seguiu o terramoto do século VIII, e terminou no século XII com o fim das cruzadas. Dotada a um progressivo abandono, a cidade será engolida pelas areias durante séculos, o que permitiu que as ruínas fossem magnificamente conservadas até à sua descoberta, em 1908. As ruínas foram maravilhosa e meticulosamente restauradas e, assim, Jerash tornou-se um dos mais espectaculares sites arqueológicos da Jordânia e um dos mais bem conservados do mundo.

Cardo Maximus com 800 metros de comprimento era a espinha dorsal arquitectónica e o centro de Jerash

Respira-se história em Jerash. Ao caminhar pelo Cardo Maximus pisamos as pedras originais, ainda marcadas pelas rodas dos carros que por elas passavam. Havia lojas em ambos os lados desta longa alameda e a todo o seu comprimento existiam buracos a distâncias regulares que canalizavam as águas da chuva para um sistema subterrâneo de esgoto. Muitos são os jordanos que fazem turismo interno e vêm visitar estas lindíssimas ruínas que são fruto de uma encruzilhada de várias culturas.

As muitas fontes visíveis em Jerash levam os arqueólogos a crer que a cidade estava equipada com um sistema permanente de abastecimento de água. O alargamento da rede de aquedutos no final do segundo século de nossa era terá permitido a multiplicação de fontes e dos banhos públicos. A Fonte de Nymphaeum é uma das mais belas fontes visíveis.

Fonte de Nymphaeum que abastecia toda a cidade de água no tempo dos Romanos

A cidade contava também com um engenhoso sistema de alavancas, movidas a água, para transportar materiais.

Uma parte do sistema foi recuperado e é visível ao visitante. A utilização da força da água e de moinhos de água para mover vários meios de transporte eram comuns em todo o Império Romano.

O Anfiteatro Norte

O Anfiteatro Norte, construído entre 90 e 92 A.C, tem capacidade para 3 000 espectadores. A sua impressionante acústica permite que qualquer orador, colocado no centro do palco, sem microfone e sem levantar a voz, se faça ouvir  em todo auditório. O espaço, enorme e imponente, está tão bem reconstruído que facilmente nos reportamos aos tempos romanos, quando Jerash era uma cidade imperial.

Alguns lugares do anfiteatro eram reservados pela classe privilegiada nas primeiras filas e as letras gregas que os marcavam ainda hoje podem ser vistas.

Nós tivemos a imensa sorte de ter um arqueólogo como guia, um apaixonado por Jerash, que nos falou de cada pedra com tal entusiasmo que ficámos a amar estas ruínas romanas. Mas não fique triste, pensando que vai ter de passear por este lugar de livro na mão, um olho nas páginas, outro nas construções. À entrada poderá requisitar um guia local que fará o trajecto consigo e lhe contará a história daquelas pedras tão ancestrais. Reserve uma manhã ou uma tarde para a visita para poder apreciar a riqueza arqueológica e as vistas espectaculares sobre o próprio site e também sobre a cidade.  

Madaba, a maior comunidade cristã da Jordânia

Fomos a Madaba fazer três coisas: visitar o Mapa de Madabá, comprar tapetes e comer boa comida jordana.  

O Mapa de Madabá, todo feito em mosaico, fazendo parte do chão da igreja, é a mais antiga representação cartográfica da Terra Santa e de Jerusalém. Está datado do século VI da nossa era e julga-se que a peça original tinha 94 m2, dos quais apenas resta ¼. O mapa é de tal maneira detalhado que desempenhou um papel importante na descoberta de certos locais durante as expedições arqueológicas a Jerusalém. O mapa viveu dias menos bons quando a cidade, maioritariamente cristã, passou para o domínio árabe no século VII. Cem anos mais tarde (746) sofre com o abalo de terra que fez tremer a cidade e a tornou quase inabitada. Em 1894, o mapa é redescoberto e em 1964 é restaurado o que sobrou do mosaico original. O mapa encontra-se na Igreja Ortodoxa Grega de São Jorge, construída em 1986. Visitámos a igreja a um domingo e podemos assistir a um casamento cristão ortodoxo. Há muito tempo que não via tanta mini saia junta. Estamos em pleno bairro cristão e nada aqui obriga as mulheres a cobrirem-se.  

Interior da Igreja de São Jorge

Os tapetes comprámos no comércio local, onde durante 3 horas o nosso amigo discutiu preços em árabe com o dono da loja. Cada um é mais espectacular que o outro, com cores, padrões e formatos diferentes. Um deleite para os olhos e uma tentação para a bolsa. Como regatear é uma regra institucionalizada, como a vida não é cara na Jordânia, com um pouco de lábia, e muita paciência, pode sair da loja com vários lindíssimos tapetes por uma dezena de euros. Eu saí.  

Após esta maratona negocial, fomos regalar-nos no Restaurante Haret Jdoudna. Os mezés são excelentes opções para quem gosta de partilhar e provar um pouco de tudo. A cozinha da Jordânia inclui muito humus, azeitonas, cogumelos, queijo, iogurte, saladas, espinafres, frango e borrego. Os sabores são difíceis de descrever. Coentros, açafrão e menta vêm à mesa do rei. Uns conferem calor aos pratos, outros uma frescura que vai bem com a temperatura morna das noites. Tudo acompanhado com um delicioso pão que por ali se chama pita.  

Haret Jdoudna, vista da sala principal do restaurante

DIA 2 – MAR MORTO E KERAK, O CASTELO DOS CRUZADOS

Seguimos com destino a Petra, através da estrada que bordeja o mar morto, passando por Kerak. Este é o trajecto mais longo (+50 minutos) para chegar de uma cidade à outra mas também o mais bonito. A viagem permitiu-nos ver um pouco da forma como os jordanos vivem os seus tempos livres. Saem em grupo, sobretudo em família, mas também com amigos e ocupam a beira da Estrada com pic nics, e muitas vezes churrascos feitos ali mesmo. As crianças brincam à volta do grupo, homens de um lado, mulheres do outro, que este é um país maioritariamente muçulmano. Há gente a andar de camelo. Há gente a flutuar no mar morto que é, na realidade, um grande lago. Uns flutuam de braços no ar, outros de dedos dos pés espetados para o céu. Como é possível esta magia, já se perguntou ? Simples. É porque a água aqui é muito mais salgada do que a do oceano. A concentração de sal normalmente é de 35 gramas por litro de água. Já no Mar Morto, são incríveis 300 gramas por litro. A água é muito mais densa e permite flutuar sem nunca tocar no fundo. É ideal para quem só sabe nadar à prego.

Jovem a andar de camelo tendo o Mar Morto como cenário

Chegámos ao Castelo de Kerak (Qasr Kerak) vindos do Mar Morto. As muralhas do castelo erguem-se imponentes e belas no alto da colina e avista-se ao longe, dominando a paisagem. As suas pedras contam uma história com quase mil anos, a dos seus senhores cristãos, muçulmanos, mamelucos e otomanos.

Chegar ao castelo serpenteando a estrada à beira de uma falésia é como transpor um portal que nos leva a outro mundo, muito antigo, habitado por senhores feudais, guerreiros e povos martirizados pelas disputas pelo poder, económico e religioso. É entrar no coração profundo da história do médio oriente. Uma visita que dificilmente se esquece.

Kerak, construído a 900 metros de altitude, é um antigo bastião dos Cruzados e marca toda a paisagem. A construção que vemos hoje data do século XII, mas Kerak já era uma fortaleza nos tempos bíblicos. A Bíblia relata como o Rei de Israel e os seus aliados de Judá e Edom aniquilaram Moabe e sitiaram o Rei Messa na fortaleza de Kir Heres, hoje conhecida como Kerak. Passados muitos séculos, os Cruzados levaram vinte anos para erguer este enorme castelo. Concluído em 1161, tornou-se a residência do senhor da Transjordânia.

Descendo o íngreme caminho que aqui nos trouxe vamos agora ver Petra. Mal podemos esperar para ver a Rosa do Deserto.

Voltarei em breve com o relato do resto da viagem.

🌤 QUANDO VIAJAR PARA A JORDÂNIA

Como em qualquer país no Médio Oriente a Primavera e o Outono são as melhores estações do ano para visitar a Jordânia. O Verão é extremamente quente e o Inverno bastante frio, sobretudo no interior e durante a noite, podendo assistir-se a alguns nevões.

Entre Junho e Agosto praticamente não chove, mas a temperatura pode facilmente atingir 40°C, com ventanias capazes de ocasionar tempestades de areia.

De Março a Maio as temperaturas máximas variam entre 16 e 26 graus, sendo muito agradável para passear.

De Setembro a Novembro as temperaturas máximas vão de 20 a 30 graus e a água do mar está morna. Foi nesta altura que fomos.

😴 ONDE DORMIR

Em Amã há muita escolha no que toca a hotéis. Consulte os seus sites habituais, leia as opiniões/avaliações para ter uma ideia sobre a qualidade do hotel e marque. Nós ficámos no Hotel Hisham, onde os quartos são confortáveis e o serviço muito simpático.

🍴 SENTADOS À MESA

Em Amã recomendo o Jafra. Excelente cozinha do Médio Oriente e com possibilidade de comer no exterior, o que é sempre muito agradável em noites mornas. À hora do almoço será melhor comer no interior, ao abrigo do calor. O espaço é muito bonito.

Em Madaba, definitivamente o Haret Jdoudna. O espaço é lindíssimo, a comida de deixar água na boca e fica mesmo no centro da cidade.

🚖 TRANSPORTES

Todas as nossas viagens foram feitas de carro, com motorista. Na maioria das vezes era o nosso amigo quem nos levava a visitar os locais. Se contratar um motorista ou um serviço de táxi, assegure-se que ele percebe bem qual o dia, a hora e local do início do trajecto.

A Jordânia não tem rede ferroviária, mas compensa com uma rede rodoviária de qualidade. As estradas são de relativo bom estado, mas a condução é de filme de cowboys. Tome um calmante antes da viagem se a condução tipo perseguição lhe aumenta a pressão arterial.

Prepare-se para muitos atrasos nos transportes públicos.

👜 ARTESANATO

  • Tapetes: como já referi há de todos os tamanhos, formatos, tecidos e cores. Feitos à mão. Não se admire se vir uns mais baratos e cozidos ao meio. São aproveitamentos de tapetes, normalmente dois, que são costurados e resultam num maior. Em seda, finamente bordados, e em lã, de vários padrões.
  • Bijutaria, com pedras de todas as cores. As jóias são muito belas embora, claro, mais caras
  • Sal e sais do Mar Morto (cuidado que há muita falsificação)
  • Lenços
  • Peças de cerâmica

☀️ ️ METEOROLOGIA NA JORDÂNIA

Tempo na Jordania

FORMALIDADES

Veja aqui se precisa de Visto para a Jordania e como pode obtê-lo. Para a grande maioria das nacionalidades o visto pode ser comprado à chegada ao aeroporto na Jordânia.

💡 DICAS

  • DINHEIRO

Existem várias Caixas Multibanco nas grandes cidades. Fora delas é aconselhável ter dinares jordanos consigo. Muitas moedas para poder dar gorjetas. Lembre-se que está no Médio Oriente, onde a gorjeta é uma instituição.

Por falar em dinheiro, há que dizer que a vida na Jordânia é bastante barata quando comparada com os preços europeus.

  • COMPORTAMENTOS

Nem homens nem mulheres exibem o corpo. Se não quiser chamar a atenção sobre si adopte um código de vestuário idêntico. Calça e camisa ou t-shirt para eles e vestidos ou saias longas com blusas de manga curta para elas. Cobrir a cabeça às vezes dá jeito por causa do sol, mas não é de todo obrigatório. Ponha na mala vestuário leve, confortável, um agasalho para a noite, chapéu, lenços para se proteger do sol e da areia.

Como em muitos outros países por estas paragens, o homem tem sempre a primazia. Lembre-se, nada nestas culturas milenares vai mudar por causa de si. Respire fundo e adapte-se. Afinal são apenas uns dias de férias. Não fique surpreso de se cruzar com jovens, e também algumas pessoas mais velhas, vestidos à maneira ocidental, sobretudo à noite e em Djebel Weibdbeh (o bairro francês situado na zona da Velha Amã). O mesmo se passa em Madaba, no bairro católico.

Sentar-se no chão é um hábito em toda a Jordânia. Não hesite em adoptá-lo. Terá onde se sentar onde quer que esteja e pode descansar sempre que necessitar.

  • GUIA LOCAL

Ter um guia local é uma mais valia. Além de informações detalhadas sobre os locais a visitar permite conhecer, mesmo que de forma limitada, a cultura e a realidade locais. Muitas das vezes os guias estão abertos a satisfazer a nossa curiosidade sobre as dinâmicas sociais e culturais do país em questão. Também servem de interpretes na nossa relação com as populações locais que, na maior parte dos casos, só falam as suas línguas maternas. Na Jordânia a língua oficial é o árabe e apenas uma minoria fala inglês. Pode contratar um guia através da agência de viagens, se recorrer aos serviços de alguma para organizar a sua visita à Jordânia. Senão, a maioria dos sites históricos dispõem de guias oficiais que pode contratar no momento.

  • TOMAR BANHO NO MAR MORTO

A brincadeira é muito engraçada, mas lembre-se de levar toalha para se secar depois de um duche que é obrigatório se não quiser ficar com o corpo todo a picar. Há vários chuveiros à beira mar, não tem que levar com a água da garrafita que trouxe para a viagem.  

  • DICA PRECIOSA

Traga sempre uma grande garrafa de água consigo.

ℹ️ INFORMAÇÕES

Mais informação sobre o Mapa e mosaico de madaba e também sobre a história e a cultura de Jerash

SEGURANÇA: apesar da recente instabilidade na Síria ter afectado a Jordânia este ainda é um país com bastante segurança. Pode-se andar calmamente nas ruas, ir ao restaurante, às compras e aos sítios históricos sem que sejamos incomodados.

Evite aproximar-se das fronteiras dos países em conflito e verifique as informações sobre a situação no Portal das Comunidades Portuguesas.

🌐 MAPA DA VIAGEM NA JORDÂNIA

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